Fiora nasceu em uma família tradicional.

 

Pais casados, classe média baixa, condições satisfatórias a se ter uma vida digna. 

 

Pai trabalhador, responsável. 

 

Mãe dedicada ao lar e também com profissão à contribuir com a renda familiar.

 

Seus pais, apesar de qualquer desorganização no início de sua vida por serem jovens, entusiasmados e com a melhor intenção para com a filha.

 

Os primeiros anos de vida foram incríveis. Aquela correria de ajuste a lidar com a nova responsabilidade por parte dos pais, mas muita alegria ao cuidar da pequena Fiora.

 

Foram dados os primeiros passos e logo se tornou uma pequena criança com mais autonomia.

 

Interessante lembrar como que nesse período algumas coisas começaram a mudar. Ao mesmo tempo que a pequena Fiora se dava conta de novas habilidades, descobrindo um mundo novo, os pais também passavam por um processo de mudança.

 

A vida parecia os cobrar mais. Estavam mais dedicados com os deveres e compromissos, e de certa forma, isso os afastou de algum modo do convívio da casa.


Conflitos entre eles foram surgindo. Conflitos que antes, não existiam. A dificuldade em ajustar pequenos detalhes do dia a dia fazia da convivência algo mais pesado do que já foi anteriormente. 

 

Mais um tempo se passou, e esse peso acabou repercutindo também para com a filha Fiora.

 

Os desgastes e mágoas causados na vida adulta acabaram tendo sua repercussão em casa. E agora, Fiora já sendo uma pequena jovem com seus 10 anos de idade, percebia os pais mais afastados.

 

Estranhava ao ver um senso crítico aguçado deles, que não existia quando era mais jovem. A diminuição do carinho, atenção e acolhimento começavam a ficar mais evidentes com a sua percepção se tornando mais lúcida nessa idade.

 

Novas experiências na escola, mudanças na vida e no corpo, que causavam dúvidas e desconfortos, ficavam por isso mesmo, pois percebia que já não tinha a mesma liberdade para se expressar em casa.

 

Quando chegava preocupada ou com algum conflitos, precisando dos pais para compartilhar ou ter uma palavra de orientação, apoio, lá estavam eles, estressados e brigando.

 

Quando se direcionavam à pequena Fiora, manifestavam cobranças relacionadas a posturas na casa e bons resultados escolares, mas raramente entravam em algum nível de intimidade que a jovem precisava. 

 

Quando entravam, diziam superficialmente que eram coisas normais que a pessoa tem que passar e deveria resolver sem frescura. 

 

Fiora logo se tornou uma linda adolescente. Novamente, um mundo novo se apresentava à ela. Novos desejos, percepções e uma mente ainda mais lúcida questionando toda a realidade.

 

Nesse momento percebeu que por algum motivo, seu pai se tornava aversivo à ela. Cada vez mais assumia uma postura rígida e afastada. Evitava qualquer tipo de conversa ou contato, e quando manifestava algum diálogo, esse vinha cheio de julgamentos e cobranças.

 

Julgamentos sobre as ideias e desejos da jovem, e cobranças sobre expectativas próprias que ele tinha e eram projetadas nela.

 

Um olhar machista e discriminador dificultavam que o bom pai conseguisse ser leve e fluido para com a jovem Fiora. 

 

A mãe, já desgastada, não tinha forças para se posicionar e também se frustrava. Sem perceber, acabava também projetando na jovem todas suas expectativas não realizadas na sua própria fase de jovem.

 

Queria que a filha fosse aquilo que ela acredita não ter conseguido ser. Visualizava que, tal como aquilo pudesse ter sido o melhor para ela, também fosse vir a ser o melhor para a pequena Fiora. Porém, estava enganada.

 

Mesmo essa mãe sendo tão inteligente, pelo próprio desequilíbrio do momento não se dava conta do óbvio. O óbvio no sentido de cada pessoa ser única e ter suas próprias caraterísticas e necessidades. Nesse sentido, seria insanidade acreditar que projetar as próprias necessidades no outro traria algum nível de satisfação, mesmo se referindo à uma filha.

 

Esses comportamentos foram afastando a não tão pequena mais, Fiora dos pais. Cada vez mais ia percebendo que não podia contar com eles para nada que envolvesse sua intimidade.

 

Reconhecia que eram bons pais em vários aspectos, principalmente no sentido da segurança. Tinha a segurança em saber que havia uma casa a esperando para dormir, se alimentar e cuidar das suas necessidades básicas.

 

Tinha segurança em saber que tinha como ir e vir de uma escola, bem como de suas atividades básicas do dia a dia. Era grata por isso, mas ainda muito confusa em entender porque não recebia mais nenhum tipo de carinho, conversa, afeta ou acolhimento.

 

Se sentia perdida, pois tinha medos, dúvidas, questionamentos e não havia mais um lar nesse sentido para compartilhar suas experiências e desenvolver o melhor em si para lidar com a vida.

 

Dia após dia foi se afastando dos pais, buscando encontrar essas respostas na rua, mas a rua era um lugar muito diferente. 

 

Valores diferentes dos que viu em casa. Possibilidades que não pareciam próximas daquilo que ela imagina desejar para si própria, porém a pequena Fiora começou a formar suas características pré-adultas nessas condições.

 

Já com 15 anos, ficava cada vez mais claro que quase tudo que considerava realmente importante fora das obrigações com os estudos deveria encontrar na rua. Já não sentia o peso do afastamento afetivo dos pais, mas tinha uma sensação estranha no fundo do coração. Uma sensação de insegurança, como se fosse ela contra o mundo sem nenhum tipo de apoio.

 

A casa, mesmo ainda tendo a cama para dormir, já não parecia mais um lar, pois se sentia uma pessoa estranha com os pais. Percebia que não se conheciam tão bem, e isso fazia total sentido.

 

Se considerar que não se relacionavam mais de forma íntima há anos, mantendo apenas a superficialidade das cobranças do dia a dia e a vivência dos conflitos, realmente estavam se tornando estranhos uns para os outros.

 

Mais um tempo se passou e Fiora conheceu um rapaz. Teve então sua primeira experiência realmente significativa no campo dos relacionamentos. 

 

Se lembrou que idealizava a relação de várias formas, principalmente usando como parâmetro a diferença em não ter o desafeto e o excesso de conflitos que os pais carregavam em casa, mas logo se frustrou.

 

Sem perceber e entender, criou exatamente esse nível de experiência. Ao se dar conta, estava vivenciando conflitos e brigas com o rapaz. A doce Fiora, encontrou dentro de si a amargura da dor, afastamento e frieza que acabou vivenciando em casa ao decorrer dos últimos anos.

 

Quando precisou extrair o melhor de si nessa nova relação, não encontrou. Não porque não quisesse, mas porque não sentia. Por mais que quisesse racionalmente vivenciar aquilo, não sentia.

 

Percebeu que não sentia, pois passou muitos anos vivendo de forma oposta em casa. Se deu conta que o valor das experiências nesse sentido eram bem mais poderosas do que ela imaginava.

 

Nesse momento, se pegou com raiva dos pais. Os culpou por ter se tornado essa pessoa também amarga e com dificuldade de vivenciar intimidade sem grandes níveis de conflitos.

 

Esse processo, mais uma vez a afastou ainda mais da família. 

 

Já com 18 anos, fez de tudo para escolher um curso universitário longe dos pais. Queria começar a construir uma vida à partir de si e por si para ser quem realmente quisesse ser.

 

E conseguiu alguns avanços. Foi para outra cidade, estudou, fez muitos amigos, conheceu outros rapazes e por fim se formou.

 

Na mesma região arranjou o primeiro trabalho, e que sensação agradável. Assustadora, mas agradável. Assustadora por ser um grande divisor de águas assumir tal responsabilidade sem o respaldo da faculdade em caráter de estágio. Agradável no sentido de ser mais um movimento que a direcionava a se libertar dos pais. Agora, teria seus primeiros ‘troquinhos’ para não precisar ser tão dependente daqueles que ela se via tão distante e diferente. 

 

Tudo parecia ir bem, até que alguns conflitos surgiram no ambiente de trabalho. Por algum motivo, ao ser cobrada, se sentia insegura. Não tinha habilidade para lidar com as diferenças, e pequenas situações que poderiam ser consideradas comuns no dia a dia de uma empresa, para ela se tornavam um caos.

 

A cobrança tinha uma repercussão absurda sobre si. Passou bons dias pensando porque isso era tão difícil para ela, e mais uma vez se assustou com o que percebeu. Nessa investigação interna, lembrou do período que os pais apenas a cobravam sem nenhum tipo de acolhimento. Nesse processo, se deu conta que estava vivenciando gatilhos de uma experiência passada mal resolvida. Parte daquela jovem Fiora lá de trás estava naquele momento presente, e isso a deixou mais indignada com os pais.

 

Colocou a questão em pauta e buscou melhorar essas dificuldades. Teve alguns avanços, pois conseguiu se ajustar de maneira comportamental a não ter determinadas respostas que a estavam prejudicando no trabalho, mas lá no fundo ainda era corroída pelo desconforto daquela inquietação e insegurança.

 

Continuou trabalhando, já próxima dos seus 25 anos conheceu um homem e se apaixonou por completo. Essa pessoa representava tudo aquilo que ela idealizada em uma figura masculina. Um cara respeitoso e dedicado à vida. De aparência física que a agradava e também muito interessado nela.

 

Começaram a sair e logo estavam namorando.

 

Cada vez mais íntimos, um belo dia o rapaz sugeriu a ela que morasse com ele, pois já não via mais sentido nos dois conduzirem duas casas na mesma cidade por questão de logística, considerando que passavam basicamente todo o tempo livre juntos e levavam uma vida de casados.

 

Inicialmente, Fiora sentiu uma sensação extremamente agradável. Um êxtase no peito por se sentir desejada e acolhida pela pessoa que amava. Por outro lado, logo se deu conta da sensação de medo. Lá no fundo uma grande insegurança ao pensar sobre a possibilidade emanou. Percebia que algo ia dar errado e não acreditava realmente que seria possível construir essa nova realidade.

 

Ficou confusa.

 

Não falou com o seu parceiro sobre isso e maquiou a realidade mostrando apenas a alegria ao receber o convite, aceitando-o.

 

Quando começaram a vida juntos, aquela sensação que evitou sobre insegurança foi ficando mais forte. Essa sensação se tornava cada vez mais complexa e fazia com que a agora, a mulher Fiora, criasse conflitos nesse relacionamento.

 

Desconfiança, medo, questionamentos se tornavam práticas do dia a dia. Práticas que foram desgastando a relação e transformando tudo que era bonito em algo não tão bonito assim. O seu parceiro também foi mudando. Deixou de ser aquela pessoa tão compreensível e dedicada. Já assumia posturas de grosseria, impaciência e alto nível de julgamento. Posturas que faziam com que a relação se tornasse cada vez mais conflitante e menos íntima. Posturas que faziam com que Fiora reforçasse que estava certa, que aquela situação não teria como dar certo.

 

Em um dia, triste e pensativa, lembrou novamente dos seus pais. 

 

Se deu conta que estava vivendo uma situação totalmente parecida com aquela que viveu por volta dos 15 anos vendo os pais se relacionarem. De forma assustada e frustrante, se deu conta que estava projetando as mágoas e as dores na sua própria relação.

 

Fiora nunca foi muito de se abrir. Apesar de ter aprendido a se relacionar na rua, não manifestava alto nível de intimidade na dialética, mesmo falando bastante. 

 

Mas, a situação ficou insustentável. O relacionamento não iria suportar mais muito tempo e decidiu conversar com uma boa amiga da época de faculdade. 

 

Nessa conversa, descreveu para a amiga parte sobre suas experiências passadas e como tudo estava acontecendo no momento presente. Para a sua surpresa, a amiga não manifestou nenhuma opinião rígida sobre a situação, apenas a acolheu.

 

Indagada com o posicionamento da amiga, Fiora forçou a situação e perguntou o que ela achava que deveria ser feito.


A amiga disse que não sabia, pois também vivia conflitos semelhantes, o que deixou Fiora extremamente surpresa, mas compartilhou uma sugestão que estava mudando a sua vida.

 

A amiga sugeriu que Fiora procurasse um psicólogo. Disse que o processo de psicoterapia, mesmo que ainda no início para ela, estava mostrando como era necessário resolver as mágoas passadas, fechar episódios que ficaram em aberto para realmente poder seguir em frente.

 

Foi quando Fiora se deu conta que para tocar a própria vida, precisava curar aquilo que a jovem lá de trás não conseguiu digerir.

 

“A Jovem Fiora….”
Por Julio Furlaneto

 

Conteúdo complementar:

– Vìdeo – Como os traumas dificultam a sua vida no aqui e agora?

– Vídeo – Relacionamento com os Pais

– Livro: Conflitos e Paz