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O que um psicólogo faz?

Vamos partir desse princípio básico registrado por Perls, pai da Gestalt-terapia:

“O objetivo da psicoterapia não é o de o psicoterapeuta se dar conta de algo sobre o cliente, mas do cliente se dar conta dele mesmo.”

Esse ponto precisa ser compreendido na prática.

Ainda é muito grande a confusão que as pessoas fazem sobre o que esperar de uma psicoterapia.

Reforçando, que também vivemos em um momento onde um grande grupo de pessoas busca soluções rápidas, imediatistas e externas.

Externas no sentido de serem soluções através de um procedimento, material, medicamento ou algo que o meio ou o outro faça pela própria pessoa.

É também interessante você considerar que, aqui meus pareceres são baseados em cima da Gestalt-terapia, a abordagem que trabalho dentro da psicologia.

A psicoterapia é fundamental para o autoconhecimento e o crescimento pessoal, para lidar com as questões e demandas da vida cotidiana e para o tratamento de transtornos emocionais.

Diversos estudos já demonstraram que a relação terapeuta-cliente, baseada em empatia, vínculo e confiança, entre outros elementos, é o fator decisivo no sucesso do tratamento e a Gestalt-terapia considera a própria relação como sua maior técnica e sua principal ferramenta de trabalho.

Ginger e Ginger (1995) afirmam que, na perspectiva global da Gestalt-terapia, a terapia visa à manutenção e ao desenvolvimento desse bem-estar harmonioso e não à cura ou reparação de qualquer distúrbio – “que subentenderia uma referência implícita a um estado de ‘normalidade’, posição oposta ao próprio espírito da Gestalt, que valoriza o direito à diferença, a originalidade irredutível de cada ser”.

O trabalho do terapeuta é ajudar seus clientes na descoberta de si, acompanhando-os nessa caminhada, de modo a ampliar sua “awareness”, seu crescimento e seu amadurecimento.

A Gestalt-terapia é uma prática psicoterapêutica que se orienta por uma visão integradora do homem, procurando vê-lo como um todo, não como um “neurótico”, um “esquizofrênico” ou como um “isso” ou “aquilo”.

A patologia é apenas mais uma das várias partes do todo que aquele indivíduo é, e sua “doença” é encarada como a maneira mais “saudável” que encontrou para enfrentar situações insuportáveis ou conscientemente inconciliáveis.

Não significa que há uma negação do estado patológico, do sofrimento do paciente pelo estado em que se encontra.

Somente é feito um novo enfoque, baseado na constatação que – através de tal estado – a pessoa foi capaz de sobreviver e de chegar até ali, ao ponto em que está. E, assim como houve uma necessidade para esta pessoa organizar-se desta maneira, a Gestalt-terapia questiona se não haveria outras maneiras, outras formas de ser e viver, que possam atender mais precisamente ao momento na qual a pessoa vive – suas necessidades atuais (RODRIGUES, 2000).

Ela parte do pressuposto que cada indivíduo apresenta sua específica organização interna, pois cada ser é único e inigualável e o seu funcionamento é sua melhor tentativa de se adaptar ao meio.

Logo, se houve uma estrutura constituída para dar conta de um problema sofrido, esta estrutura teve sua necessidade, surgiu para uma função em alguma época e se hoje é tida como uma “doença” é porque se encontra desatualizada em relação ao contexto presente de vida.

Por isso, o trabalho clínico é voltado para uma ampliação da consciência do indivíduo sobre seu próprio funcionamento, sobre como ele age ou como se bloqueia em sua tentativa para alcançar seu próprio equilíbrio.

Dessa forma, o foco terapêutico é deslocado das mãos do terapeuta e vai para a relação terapêutica, onde o terapeuta trabalha para que o indivíduo perceba a responsabilidade sobre suas escolhas e alcance dentro de seu próprio tempo e possibilidades, uma atitude mais autônoma e autossustentada.

“Na clínica gestáltica, é importante que a relação terapêutica se configure em morada, que haja hospitalidade para que o paciente alcance abertura e sustentação na instabilidade e na precariedade da condição humana, e restaure ou inaugure a condição de peregrino e caminhante, engajado na incessante obra de ser si mesmo, cocriando o mundo e o próprio destino” (CARDELLA in FRAZÃO e FUKUMITSU, 2015, p. 56).

Cardella (1994) aborda, de forma pioneira, o amor como instrumento e alicerce primeiro do trabalho terapêutico. E define:

“O amor terapêutico manifesta-se através de um estado e um modo de ser caracterizados pela integração e diferenciação da personalidade que nos permite ver, aceitar e encontrar o outro (cliente) como um ser único, diferenciado, e semelhante na sua condição de humano” (CARDELLA, 1994, p. 42).

“A tarefa do terapeuta é acolher o cliente, com tudo que este traz de tenebroso ou sublime, deixando-o depositar no chão sua bagagem, que se tornou pesada de tanto ser carregada as costas. À medida que desenvolvem o calor da intimidade e a confiança, o viajante recém-chegado se dispõe a abrir seus pacotes, mostrando então seus conteúdos e compartilhando histórias de viagem, dos lugares longínquos de onde foram trazidos os objetos que hoje, malgrado o peso a ser carregado, constituem a sua atual riqueza e patrimônio” (JULIANO, 1999, p. 21).

Ela ainda completa:

“A escuta interessada do terapeuta é curativa por si só, uma vez que consegue, por espelhamento, fazer emergir o interesse da pessoa, abrindo espaço para que surjam características que estavam escondidas ou negadas” (p. 21).

Para Perls (1981), a tarefa central da terapia não é fazer com que os pacientes aceitem interpretações arcaicas de sua história passada, mas é ajudá-las a se tornarem vivas para a experiência imediata no momento presente. É acordar para a imediatez e simplicidade do agora. O clássico “por que” da Psicanálise dá lugar ao “o que” e ao “como”.

Ginger e Ginger (1995) explicam:

“a terapia dá ênfase à tomada de consciência da experiência atual (‘o aqui e agora’, que inclui o ressurgimento eventual de uma vivência antiga) e reabilita a percepção emocional e corporal (…), desenvolve uma perspectiva unificadora do ser humano, integrando ao mesmo tempo as dimensões sensoriais, sociais e espirituais, favorece um contato autêntico com os outros e consigo mesmo, um ajustamento criador do organismo ao meio, assim como uma consciência dos mecanismos interiores que nos levam, bem frequentemente, a condutas repetitivas” (GINGER e GINGER, 1995, p. 17).

Dessa forma, pode-se considerar a terapia como uma tomada de consciência global da forma de funcionamento do indivíduo, assim como de seus processos. Para isso, há um destaque dos processos de bloqueio e interrupção do ciclo de contato em que as insatisfações, medos e inibições são desmascarados.

Para Aguiar (2005),

“a perspectiva do ser humano relacional também implica que o processo terapêutico, que tem como fio condutor a relação terapêutica, se apresenta como uma alternativa para a reconstrução e/ou reconfiguração dos padrões de relação da pessoa com o mundo, sendo a relação terapêutica percebida como instrumento de cura, como um fenômeno interativo facilitador da emergência de formas mais saudáveis e satisfatórias de interação com o meio” (p. 40).

Agora, que está um pouco mais claro, conclua que, a terapia é uma transformação sua, interna, que você deve buscar.

É um processo de construção não imediatista.

É um processo onde você toma responsabilidade sobre si próprio.

É um processo onde você aprenderá a expandir sua própria consciência.

Julio Furlaneto

Psicólogo
CRP 14/05550-0

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