13 - Lissandra - A pandemia acabou com o meu relacionamento! (COVID-19)

Lissandra - A pandemia acabou com o meu relaciomaneto (COVID-19)

Lissandra, casada há cinco anos, mãe de uma pequena menina, a jovem Karma de cinco aninhos, estava com dificuldades.

Conheceu seu esposo sete anos atrás. Ela estava terminando a faculdade de enfermagem e ele já trabalhava como médico há algum tempo. Tudo começou em uma palestra que ele ministrou na universidade em que Lissandra estudava.

Se atraíram, se encontraram através das redes sociais, começaram a conversar e logo estavam saindo e envolvidos.

Como em muitos relacionamentos, no início, dominado pela paixão e encantamento. Aquela fase onde um produz tudo de bom neuroquimicamente no outro e se torna um vício querer estar próximo. Período muito importante por sinal, onde muitas coisas que são vividas podem ser mantidas em longo prazo.

Esse fervor de paixão durou seis meses para Lissandra, quando ela se deparou com a primeira desilusão sobre seu parceiro.

Lissandra pegou algumas conversas no celular dele. Conversas com intimidade. Nada tão agressivo que incitasse que uma traição física tivesse acontecido, mas colegas de trabalho do hospital que ele trocava flertes.

Ao ver, pensou em se conter para não falar nada enquanto pensava o que iria fazer com isso. Mesmo porque, pensava que ficaria totalmente estranho o ponto de ter mexido no celular dele escondido. Como ela poderia justificar isso?

Na prática foi diferente. Dois dias depois de ter visto as conversas, em uma discussão comum do dia a dia não se conteve e falou o que tinha lido no celular. A casa caiu.

Lissandra esperava que o parceiro fosse ficar com vergonha ou ressentido, mas ocorreu justamente o contrário. Ele saiu do controle com gritos e grosserias, extremamente furioso porque ela havia mexido no celular dele. Em seguida, afirmou que nunca a havia traído e eram apenas colegas de trabalho, encerrando assim o assunto.

Ela ficou assustada, em estado de choque, no literal. Sabia que aquilo não estava certo, mas não conseguia reagir. Ficou simplesmente travada e viu a situação passar pelos seus olhos.

Mais alguns dias se passaram. Eles ficaram distantes um do outro. Sem intimidade na cama, falando pouco, mas dia após dia a poeira foi baixando. Voltaram a conversar com mais naturalidade. Lissandra pensou muito sobre o que aconteceu. Entendia que aquela situação não estava certa e não podia se manter, mas já estava amando o parceiro.

Um outro lado dela pensava que um erro não podia sacrificar uma relação que para ela estava sendo promissora. Racionalizou que não se joga fora uma relação por causa de um primeiro grande conflito e comprou a ideia de seguir em frente, passando por cima desse ocorrido.

O convívio do casal foi melhorando e logo estavam realmente bem. Entraram no que chamo de fase do amor. Quando se entende a realidade de quem é quem, as fantasias sobre o outro vão se desmanchando e percebe-se que há realmente o desejo de construir planos a dois de forma sólida e duradoura. Faz sentido estar com aquela pessoa, pois acredita-se que sua vida é melhor através daquela relação.

Foi então, que haviam se passado dois anos de namoro e decidiram se casar. A jovem promissora Lissandra, recém-formada, animada com o seu trabalho e as primeiras conquistas, e o renomado doutor, formam nesse momento uma nova família.

Ela era evangélica, de família evangélica, e o parceiro de uma família tradicionalmente católica. Apesar de ir contra algumas crenças, Lissandra concordou em se casar e seguir o protocolo católico. Pensou naquele momento que isso fosse um detalhe muito pequeno para ser empecilho dentro de algo tão valoroso que estava sendo construído pelos dois.

E assim aconteceu. O casamento foi repleto de bons momentos e alegria. As famílias e amigos de ambas as partes participaram do contrato religioso e da festa, onde todos se divertiram e homenagearam a nova família que estava se construindo. Família, pois logo passando a lua de mel, para a surpresa de ambos, Lissandra descobriu que já estava grávida quando se casou.

Eles ficaram apegados a uma mistura de sentimentos. Êxtase em serem pais, com a preocupação da mudança de realidade que esse compromisso remetia. Lissandra tinha começado a trabalhar há pouco, e seu esposo queria dedicar um tempo para se curtirem, viajarem e conhecerem outros países.

Alguns conflitos se aprofundaram nesse período. Durante a gestação, o agora esposo de Lissandra deixava claro que dentro de suas crenças, a mulher precisava cuidar da criança. Ele não queria seu filho com uma babá ou em uma escola infantil o tempo todo. Lissandra também não queria isso, mas se percebia muito jovem e entendia que não podia deixar toda a sua vida pessoal e profissional de lado.

Brigas em cima de brigas. O convívio foi ficando mais pesado, até que Lissandra cedeu. Depois de ouvir a orientação do médico, para ela tomar cuidado com as emoções que sentia durante a gestação, porque tudo de uma forma ou de outra poderia interferir no desenvolvimento da criança, se deu conta que não podia passar a maior parte do tempo com raiva, se exaltando e desequilibrada.

Fez a escolha consciente de concordar em como o esposo via a situação, aceitando abdicar de continuar trabalhando depois do nascimento do filho para se dedicar integralmente à casa e à família.

Foi o que chamo de período de comprometimento. Na verdade, apesar de todo o desgaste até chegarem ao ponto de consenso, foi um período leve e agradável para ambos. Os dois ficaram bem um com o outro aceitando o papel que precisavam executar. O esposo iria se concentrar ainda mais em trabalho, para garantir a segurança financeira da família, o que não era difícil para ele, pois já era bem-sucedido desde jovem,  e Lissandra gerenciaria a casa.

Como o tempo voa e não espera ninguém, em um piscar de olhos a criança já havia nascido. Era uma menina.

Em um dia, uma foto tirada no hospital tendo a criança, e no outro, se deparam com a realidade dela já ter dois anos de idade, estar se movimento e esboçando as primeiras palavras com clareza. Tudo parceria muito bom. Lissandra e o esposo, nesse momento estavam confortáveis com a rotina. O que eles não sabiam, é que a rotina colocada em um formato de zona de conforto seria um problema.

Lissandra continuava cuidando da criança e da casa com alegria, e o esposo trabalhando. O problema foi que não perceberam que a intimidade deles como casal entrou em uma rotina.

O esposo passava o dia todo fora, incluindo algumas madrugadas devido aos plantões médicos. Enquanto estavam em casa, basicamente se juntavam apenas para tomar as refeições ou falar sobre algo dentro da administração da casa e da própria família que precisava ser compartilhado para tomarem uma decisão conjunta.

A vida sexual já não era a mesma. A pequena filha estava agitada e tinha dificuldade para dormir. Consumia muito tempo da mãe, que quando conseguia um trecho, preferia descansar devido à exaustão física e mental. O esposo tentava não reclamar da falta de intimidade, entendendo que era uma situação passageira e buscando respeitar a condição de Lissandra.

Mais um ano se passou e algo extremamente novo para todos aconteceu.

Surgiu no noticiário que havia um vírus perigoso, chamado covid-19, que estava se espalhando por toda Europa e Estados Unidos. Algumas pessoas vinham a óbito rapidamente após o contágio e não havia uma explicação para isso. Parecia uma gripe mortal.

Era uma doença nova e assustadora. Para o casal que morava no Brasil, ainda demorou um pouco para cair a ficha dos riscos, pois levaram alguns meses até que esse novo vírus, covid-19, tomasse conta de toda a américa do sul.

Em uma fase onde eles já tinham certa maturidade emocional, se deram conta que estavam em risco. Ambos da área da saúde, por mais que Lissandra não trabalhasse mais, porém o esposo frequentando os principais hospitais da cidade, viam as UTIS cheias de casos de covid.-19.

O esposo trabalhava preocupado, pois tinha contato direto com esses atendimentos de covid. A tensão de não levar doença para casa, sempre pensando principalmente no bem-estar da filha. Quão horrível seria ser responsável por transmitir algo assim para a própria filha?

O tempo continuou passando, como há de ser, e já se completava um ano de pandemia. Decisões mais drásticas foram tomadas pelos governos de todo o mundo, incluindo do Brasil, sobre isolamento social e lockdown. Mesmo assim, nada vencia o civd-19.

Toque de recolher para as pessoas voltarem mais cedo para casa. Novas normas de restrições de ir e vir e uso dos comércios e até a restrição total, isolando as pessoas em casa por determinados períodos. Nada fazia com que o covid-19 parasse de ser uma ameaça.

De repente, foram anunciadas as primeiras vacinas para covid. Era como uma luz no fim do túnel. Mesmo havendo toda aquela burocracia que você conhece sobre o mundo, politicagem e etc, as vacinas começaram a ser produzidas em grande escala. Havia a nova esperança em eliminar os riscos do covid.

Só que nesse período, voltaram as brigas na família de Lissandra. O esposo não entrou em isolamento por ser médico e precisar atender os casos, muito pelo contrário. Acabou se afastando de casa, ficando ainda mais tempo no trabalho.

Lissandra se sentia cada vez mais incomodada com isso. Percebia que tinha algo errado acontecendo, mesmo entendendo a necessidade do trabalho do esposo com relevância para esse período.

Foi quando o seu mundo desmoronou pela segunda vez. Em um quarta-feira, 02:00am, quando o esposo havia chego de um plantão médico na ala de covid, como ele fazia de rotina, deixou as roupas que chegava em casa em um cesto separado para evitar o contágio e entrou direto no banho. Lissandra estava acordada, e foi mexer em seu celular.

Lá estava. Mensagens para mulheres, mas dessa vez era diferente. Tinha uma mulher em especial onde havia descrições de experiências íntimas em detalhes já há meses. Lissandra explodiu de raiva. Entrou no banheiro xingando e falando sobre o que tinha visto, e para a sua surpresa, dessa vez o esposo não negou e se manteve calmo. Assumiu que estava envolvido com uma outra médica do serviço, mas que isso não tinha valor emocional para ele, sendo assim, não esperava terminar o casamento com essa situação.

Lissandra não acreditava no que estava ouvindo. Como podia o próprio esposo falar com tal naturalidade de uma traição que a desmerecia e desrespeitava como ser humano?

Lissandra falou que não conseguiria viver assim e decidiu se separar. Para sua surpresa, novamente, o esposo apenas disse: “-ok”.

Lissandra ficou em choque. Deitou-se no quarto de hóspedes e não acreditava que seu relacionamento estava entrando em um caos, ou pior que isso, que talvez nem existisse mais. Quantos sacrifícios ela havia feito para destruir um projeto de vida a essa altura do campeonato? Como iria se ajustar em tempo de pandemia, covid-19, estando fora do mercado há tanto tempo e com pouco contato com a própria família? Era o fim!

Desde então, Lissandra tomou a decisão mais dolorosa que teve até hoje. Aceitou a situação. Passou por cima do seu próprio orgulho e dignidade, e ficou com o esposo. Tiveram obviamente algumas brigas onde se “posicionou” falando que não queria que isso acontecesse mais e que era para ele romper o contato com a outra médica. Ele concordou, mas ambos sabiam que isso não iria acabar. E se acabasse, sempre haveria outra pessoa.

Lissandra se viu em uma prisão de pandemia com alguém que não a amava e respeitava mais, como um dia amou.

Não sei se você já viveu alguma história assim, ou até conhece alguém que esteja passando por algo semelhante nessa dificuldade que a pandemia criou.

01 - O que um psicólogo faz?

Julio Furlaneto

Psicólogo
CRP 14/05550-0

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